“A imagem de Marrocos nos relatos de viagens dos Portugueses (1870-1996)” é uma compilação de textos de viajantes portugueses a este país do Norte de África, da autoria de Abdelmouneim Bounou, publicada pela Universidade Sidi Mohammed Bem-Abdellah de Fés em 1998.
Neste textos é patente o fascínio que Marrocos exerce nos viajantes portugueses, os sentimentos que neles desperta, o mistério que encerra.
O texto que se segue é um extracto das “Viagens a Marrocos” de Rui da Câmara publicado originalmente em 1876 pela Livraria Internacional no Porto:
CONTRASTES ENTRE EUROPEUS E MOUROS
Conserva esta raça, apesar de separada do continente por um estreito braço de mar, os costumes, os trajes, os traços da sua fisionomia como nos primeiros tempos: por aqui se verá quão diferente é em tudo dos nossos hábitos:
O europeu monta pela esquerda e com estribos compridos; o mouro pela direita e com estribos muito curtos.
O europeu ferra os seus cavalos com ferraduras abertas; o mouro com ferraduras fechadas, afectando a forma de boca de cântaro.
O europeu monta em selim raso e leve; o mouro em seiras pesadas.
O europeu leva as ilhas dos seus cavalos apertadas; o mouro completamente largas.
O europeu leva os alforges á garupa e divididos em dois; o mouro leva-os ao pescoço do cavalo e a um lado.
O europeu, se monta um burro, aguilhoa-o atrás na garupa; o mouro adiante, entre as espáduas.
O europeu usa armas curtas e de alcance; o mouro armas compridas e de pouco alcance.
O europeu prefere a pólvora de grão miúdo; o mouro prefere a pólvora de grão grosso.
O europeu veste o fato justo e de cores escuras; o mouro veste-o largo e de cores claras.
O europeu traz os pés bem abrigados e a cabeça pouco coberta; o mouro trá-los completamente ao ar e a cabeça bem coberta.
O europeu lava em primeiro lugar as mãos; o mouro os pés.
O europeu rapa a barba e corta o cabelo; o mouro rapa o cabelo e corta a barba.
O europeu senta-se em cadeiras e dorme em camas altas; o mouro senta-se no chão e em camas baixas de ordinário. (…)
O europeu tem as suas casas com janelas, em geral grandes; o mouro nas suas casas não tem janelas, ou se as tem são pequenas frestas somente para deixar entrar o ar.
A porta maior da casa do europeu é a da entrada; na do mouro esta é geralmente a mais pequena de todas, sendo algumas vezes apenas da altura de um homem.
O europeu recebe as visitas no interior da casa; o mouro recebe as suas fora, num banco que tem á porta. (…)
O europeu gosta da sociedade e da conversação; o mouro gosta da solidão, e quando está acompanhado passa horas inteiras sem dizer uma palavra.
A mulher do europeu toma parte nas suas reuniões; as mulheres dos mouros reúnem-se entre si e jamais aparecem onde há homens.
O europeu come com a sua família; o mouro come só.
O europeu se tem convidados manda-os servir primeiro do que ele; o mouro se tem algum convidado ou hospede, come de tudo antes dele. (…)
O europeu gosta da variedade na comida; o mouro não. (…)
O europeu bebe durante a comida a pequenos goles e sem fazer ruído; o mouro bebe depois da comida e de uma só vez, imitando o ruído da agua caindo num sorvedouro.
O europeu tem o arroto por uma falta de educação; o mouro comete uma grande falta para com o seu amfitrião, dando-se este por muito ofendido se o seu hospede não lhe dá os agradecimentos com um arroto de reconhecimento, de ordinário recebido com palmas. (…)
O europeu mostra o seu respeito tirando o chapéu, beijando a mão alheia e passando por detrás; o mouro tirando as babuchas ou chinelas, beijando a sua própria mão e passando par diante.
O lugar de distinção do europeu é á direita; o do mouro á esquerda. (…)
O europeu, se chama alguém com a mão, volta os dedos para baixo; o mouro volta os dedos para cima.
O idioma do europeu é geralmente formado nos beiços; o do mouro na garganta.
O europeu escreve da esquerda para a direita; o mouro da direita para a esquerda.
O europeu escreve as vogais e marca os períodos; o mouro escreve só as consoantes e não separa os períodos nem usa sinais de pontuação, e unicamente um sinal equivalente ao nosso ponto é que se encontra algumas vezes nos seus escritos. (…)
O europeu usa adiante dos regimentos as bandas de musica; o mouro sempre atrás.
O europeu tem só uma mulher e esta, muitas vezes, sobra-Ihe; o mouro tem geralmente mais do que uma e não pode dizer-se que lhe sobram, visto que não lhes dá lugar a que isso suceda.
O europeu recebe dinheiro como dote da família ou da sua própria mulher; o mouro entrega á família da mulher como dote uma quantidade de dinheiro ou valores estipulados.
Há entre o europeu, que muitas vezes busca a mulher porque lhe deseja o dinheiro, e o árabe que entrega parte ou todos os seus bens, porque deseja a mulher, alguma diferença. (…)
O europeu traz a sua mulher com a cara descoberta e o resto do corpo tapado; o mouro traz a mulher com a cara coberta e o resto do corpo bastante nu.
Ao europeu a lei e os costumes não lhe permitem castigar a sua mulher; ao mouro a lei e os costumes autorizam-no a isso terminantemente.
O europeu quando quer separar-se da sua mulher, tem alguma dificuldade, dá escândalo, gasta dinheiro se o quiser fazer legalmente; o mouro desfaz-se da mulher com a maior facilidade. (…)
Na Europa as mulheres constituem a maioria dos fieis nas igrejas; nas mesquitas dos mouros não podem entrar as mulheres, e se por acaso entram algumas colocam-se nos cantos mais obscuros, e procuram até conter a respiração para que a sua presença não possa perturbar o fervor e recolhimento em que se supõe deverem estar os seus donos e senhores. (…)
Na Europa as lojas são espaçosas, os compradores entram dentro delas e geralmente sentam-se em quanto que o vendedor mostra os artigos em pé; em Marrocos as lojas são muito pequenas, os compradores não se sentam nunca, porque ficam na rua, e os vendedores estão sempre sentados.
Tal é este originalíssimo pais. Tal é esta originalíssima civilização!
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